Bem vindos ao meu canto criativo. Não poder me expressar é quase sinônimo de não poder respirar.

domingo, 26 de julho de 2026

SOLIDÃO

Escuto o som do meu ventilador

Me salvando do calor

Me trás alívio, mas não amor

Me trás vento, mas nada de cor

Eu lembro que vivi

Mas agora eu sumi

Desapareci

Nunca existi

 

Eu era amada, ou achava que era

Parecia ser real

Mas acho que me enganei

E agora eu sei

Uma dolorosa espera

Mas amor não era

porém eu

Eu sei que amei

 

Eu sinto um vazio

Um calor frio

Que faz o relógio desacelerar

E tempo frear

Neste momento de nada

Águas passadas

Só restou o velho refrão

Eu e a solidão

 

No fim de semana

Eu tolero minha cama

Troquei meu colchão

Mas não o edredom

Limpei a parede

Alterei os espaços

Mas continuo sem abraços

Ainda sinto sede

 

Mesmo em companhia

Eu me sinto sozinha

Minhas histórias assustam

Eu vivo com filtros

Um leve sorriso

Quando é preciso

Porque falar de mim

É um poço sem fim

E melancolia

Não é boa companhia

 

Mas o paradoxo

É que me acostumei a ser assim

Fugindo do barulho

Tirando o entulho

Me afogando em mim

Eu queria existir para alguém

Que quisessem meu bem

Que lesse meu olhar de dor

E visse o bem

Com a curiosidade de um gato

vestisse meu sapato

Apesar do desconforto

E eu não tivesse que explicar

Porque sinto que sou difícil de amar

 

Mas é um sofrimento belo

Não o rejeito nem o anelo

Pois algo tão singelo como a solidão

Mexe e remexe o coração

E me lembra que ele bate

e algo quer me dizer

sobre o viver e o sofrer

sobre o sim e o não

sobre a cores do pôr do sol

sobre o peixe e o anzol

sobre o começo e o fim

sobre o tudo e o nada

sobre minha respiração

sobre a letra da canção

sobre a poesia na solidão

sobre o frio da montanha

sobre a teia de aranha

Sobre o céu estrelado

dentro do coração quebrado


Eu olhava e não via

Eu falava e não sentia

Hoje embebo cachoeiras

Verdades verdadeiras

Uma névoa na estrada

Que segura minha mão

E me lembra todo dia

Que no meio à solidão 

 

Eu sou amada

sexta-feira, 17 de abril de 2026

MINHA SOMBRA

 A minha sombra sempre me acompanhou

Mas eu sempre a odiei

Pois ela sabia coisas que só eu sei

Momentos que posso fingir que perdoei

Mas onde nem o perdão alcançou

Ou somente piorou

A ferida que quando eu encostei

Sangrou, não curou

 

A minha sombra é silenciosa

De noite nem a vejo

Mas sempre a sinto

Ela não é desastrosa

Ela é um labirinto

Que parece perigosa

Mas é a única saída

Se você está disposta a se perder

Para ganhar sua vida

Indo contra seu instinto

De sobrevivência

Abraçando a decadência

A sombra é sua amiga

 

Minha sombra é melancólica

Não porque seja triste

Senão porque é verdadeira

Ela não é passageira

Me acompanha a vida inteira

Vale a pena escutar

Esse tom melódico

Que um dia sentiste

Com a inocência perdida

Com o fim de uma vida

com a interrupção da canção

com a quebra do coração

A juventude roubada

A infância maltratada

A sombra tudo viu

Por isso ela ainda não sorriu

 

Minha sombra é gigante

O grotesco e instigante

Os segredos a as maldições

O som das mil canções

A solidão de séculos inteiros

Os amores sorrateiros

O cuidado que não foi dado

O desejo e o pecado

Minha sombra é cúmplice

Minha sombra é testemunha

Minha sombra é o cálice

De toda a calunia

 

Minha sombra é dançarina

Ela é apenas uma menina

Ela é meiga e corajosa

Assustadora e formosa

Ela me conhece bem

E nunca me abandona

Uma irmã e uma mãezona

Minha filha e minha cria

Minha sombra é companhia

Ela pula de alegria

Ela é trovão e calmaria

 

Minha sombra é inseparável

Siamesas somos nós

Ontem batemos altos papos

Hoje desatamos nós

Quando eu lembro, ela chora

Quando eu brinco, ela ri

Quando grito, ela cala

E me permite existir

 

Luz e sombra, sombra e luz

Nem tudo precisa ser uma cruz

Um eterno paradoxo

Com vestido e capuz

Num um pouco ortodoxo


Minha sombra é angustia a paz

Mas dela, não me separo jamais


Sem mais 



domingo, 24 de agosto de 2025

Iza

Ele nasceu de mim

Mas não era meu

Nem minha

Anulando os sonhos que eu tinha

Eu achava que era para ser assim

Mas era assado

Não estava certo ou errado

Apenas real e tangível

Uma dor sensível

 

Me atravessou a alma

Quebrou parte do meu coração

O qual sangrou quando tudo mudou

Me desensinou a fantasia

Que a vida seria como eu queria

Que eu tinha controle da situação

 

Eu não queria soltar a mão

E confiar que a onda levasse

e este tempo terminasse

Porém, um dia o mar devolve

E te envolve

Tudo evolve

 

Nossos filhos não são nossos

Eles apenas são

Respiram seu próprio coração

Eles têm um universo

Que reservam para si

E não adianta insistir


Fé, carreira, sexualidade 

Relacionamentos e identidade

Humores, terrores e amores

Segredos, alegrias e dores

Um oceano de emoções

Que reservam para si

E não adianta insistir

 

Ele nasceu de mim

Não era meu

Nem minha

Na morte houve vida

Uma pequena flor

Uma nova forma de amor

Aprendendo a escutar

As palavras não faladas

A criança assustada

Os momentos de pausa

Sem questionar a causa

 

Abraçando a incerteza

Aceitando este presente

De amar com mais leveza

Sem expectativas

Sem exigências

Amar sem entender

Mas com clareza

 

Te amo, minha vida

Te amor porque escolhi te amar

Você nasceu de mim

Mas não é meu

Nem minha

Mas eu sou sua

Sou sua mãe

Meu coração está maleável

E vai se adaptar

A todas as formas de te amar

 

Mesmo que eu sinta medo

Eu protejo seu segredo

Eu vou te acompanhar

Durante a trajetória

Até você se encontrar

E fazer sua história


E pelo caminho...

Eu me encontrarei também

Em você

Meu espelho, meu bem.  

sábado, 22 de fevereiro de 2025

MEIA IDADE

Acordei no meio da vida
Mal vivida
Um pouco contida
Mas ainda assim, minha vida


Acordei de forma brusca
Com um soco no coração
Um velho refrão
De supetão
Me lancei na busca
Um pouco perdida
Mas ainda assim, minha vida


Os muros desmoronaram
Os sonhos se afastaram
Os amores falharam
As rugas visitaram
Mas o corpo seguiu rugindo
A alma rindo
Os motivos sumindo
Tive uma recaída
Mas ainda assim, minha vida


Encontrei algo espiritual
Mas também algo banal
Algo novo e algo igual
Um dança coloquial 
Cores descombinando
O cabelo voando
A maquiagem escorrendo
Vivendo e aprendendo
Uma grande sacudida
Mas ainda assim, minha vida


Nao era o planejado
Como se algo deu errado
Nao era o da revista
Nao estava prevista
Mas ainda assim, uma conquista
Eu sou eu, mas diferente
O extremo e equivalente
Um grego presente
Uma distraída
Mas ainda assim, minha vida


Muito coisa aprendi
E desaprendi
A respirar com mais amor
A dormir com mais carinho
Um falar mais genuino
Uma convivência com a dor 
Sem terror
Um apego pela liberdade
De ser eu, ser minha
Um desapego pela mascara
Que eu antes tinha
Um desejo de não desejar
Apenas observar
Uma vontade de não querer
Apenas ser
Um risco sem saída
Mas ainda assim, minha vida
…Minha vida


quinta-feira, 8 de agosto de 2024

BURACO

 Existe um buraco entre o peito

Que não sente direito

Que sempre encontra um defeito

E não descansa no leito

 

O buraco é invisível

Mas alguém o cavou

Alguém te magoou

Abandonou

E foi imprevisível

Até inadmissível

 

Não deu tempo de se preparar

Para colocar algo no lugar

Self-help ou outro hobby

É impossível de enganar

Simplesmente apareceu

E você não mereceu

Mas o buraco agora é seu

 

Você pode decorar de flores

Ou de dores

Você pode fazer a cama

Ou rolar na lama

Não existe regra ou solução

Apenas um buracão

Um vazio temporário

Um espaço no armário

Que foi esvaziado

Roubado e dilapidado

Mal amado


Às vezes você escala um pouco

E vê um por do sol

Mas sem sentir o calor

Um sentimento louco

Às vezes você é um zumbi

Esquece que pode rir

Fica dentro de si

 

O buraco não é sua vida

Apenas uma estação

Um dor incabida

Dentro do coração

Um tempo de luto

E introspecção

 

Dê o tempo ao tempo

Lembre-se de outros momentos

Outros buracos

... Que hoje são refugio

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

ORFÃ

Hoje acordei orfã

Sem mãe nem pai

Sem lar, sem par

Sem centro ou fim

Apenas eu 


Tentei lembrar-me de mais

De amor e paz

De colo e aconchego

Beijo na testa

Bolo na festa

Mas fui incapaz

Foi ineficaz


Lembrei-me de sombras

Mentiras e fantasias

Fuga e choro

Indiferença

Invisibilidade

Mera existência

Uma memória cinza

Sem cor

Com pouco amor


Lembrei-me de moradias

Casas, calçadas e beliches

Àgua gelada, fetiches

Seres doentes na mente

Medo constante e eminente

Um jogo de sobrevivência

Uma efêmera existência

Um buraco escuro no fundo do baú


Uns vivem de memórias

De dias alegres e inocentes

Torrada, geleia e presentes

Calor e cuidado

Sono sossegado

Comida e carinho

De ter um ninho

De mãe e pai

Beijo de boa noite


Eu vaculho meu universo

Por túneis empoeirados

Lugares mal amados

Buscando os armários

Onde me escondia

No universo paralelo

De tudo que é singelo

Que outros enxergam como banal

Como apenas um dia


Ser órfã é um estado

Algo físico e pesado

Mesmo rodeada de entes

Continuo ausente


O que não foi nunca será

Mas o que é sou eu

Mesmo invisível, existo

E persisto


Eu lembro-me de mim

Meus pensamentos

Meus anseios

Minhas verdades

Nenhuma maldade

Pois como posso errar

Se ninguém pôde me ensinar?


Eu respiro vida, não memorias.

Respiro hoje, não ontem.

Amanha é mágico, novas histórias ...

Talvez não desapontem.

quinta-feira, 19 de março de 2020

ISOLAMENTO


A mesma cama, o mesmo lençol e sofá.
O alarme maldito que deixou de tocar.
Um almoço, um lanche, um jantar.

Não sei que horas são e nessas horas não importa.
Horas? Que tal dias? Encarando a porta.
Tanta vida presa, este apartamento comporta.

Dirigir... ah dirigir. Até mesmo fugir.
Só o pensamento me faz sorrir.
Mas a pergunta é: Para onde ir?

Lugar remoto. Que tal China?
Sinceramente, estou mais segura na esquina.
O inimigo invisível se esconde na neblina.

O perigo sempre foi fácil de ver.
Eu corro me escondo. Eu finjo não crer.
Ignoro se não há nada que se possa fazer.

Se tudo desmorona, eu corro na praia
Pego o carro e vou para gandaia.
Lugares abertos. É minha laia.

Mas grades? E portas? Por acaso sou culpado?
Pelo que me lembro, não fiz nada de errado.
Tudo que quero são pessoas do meu lado.

Silencio e ruído? Um eterno zumbido.
Se eu pudesse, já teria sumido.
Furtaram minha liberdade igual bandido.